Poucas terras moçambicanas foram tão marcadas por uma linha férrea como o actual distrito de Moamba: antes dos carris, território de chefaturas ronga e changana; depois deles, corredor entre o oceano Índico e o planalto do ouro sul-africano.
Povoamento e comunidades
O território do actual distrito foi povoado por comunidades ronga e changana, do grupo tsonga do sul de Moçambique, organizadas em chefaturas nos vales dos rios Incomáti e Sábiè, onde a terra e a água permitiam a agricultura e a criação de gado. Dessa matriz permanecem as línguas — o xichangana continua a ser a língua materna predominante — e práticas como a festa do canhu, descritas na página Cultura e património. A origem exacta do topónimo «Moamba» não está documentada com segurança.

O caminho-de-ferro de Lourenço Marques ao Transvaal
A descoberta de ouro no Transvaal fez da baía de Lourenço Marques o porto natural do interior sul-africano. A linha férrea que atravessa o distrito — em bitola de 1 067 milímetros — nasceu dessa corrida: as principais povoações de Moamba cresceram ao longo dos carris.
- 1872Primeira concessão
É atribuída a concessão inicial para uma linha férrea entre a baía de Lourenço Marques e o Transvaal.
- 1875Acordo Portugal–Transvaal
Portugal e o Transvaal acordam a ligação ferroviária entre o porto e o planalto mineiro.
- 1885Início das obras
A Delagoa Bay & East Africa Railway Company, do coronel norte-americano Edward McMurdo, inicia a construção a partir de Lourenço Marques.
- 1887Primeiros 80 quilómetros
A 1 de Dezembro é inaugurado o troço inicial de 80 quilómetros, atravessando as terras do actual distrito.
- 1889Administração do Estado
A 25 de Junho de 1889 a linha passa para a administração directa do Estado português.
- 1890Chegada a Ressano Garcia
A 1 de Março os carris atingem a fronteira, no lugar que viria a chamar-se Ressano Garcia.
- 1894–1895Ligação a Pretória
A ligação completa a Pretória abre a 2 de Novembro de 1894 e é inaugurada oficialmente a 8 de Julho de 1895, com o presidente Paul Kruger e o comissário régio António Enes.
A estação de Moamba estava prevista desde o estudo de traçado do engenheiro Joaquim José Machado (1881–1882) e foi construída depois de 1893. Em 1914 concluiu-se o ramal que partia de Moamba para Magude e Xinavane, hoje inactivo.
Quem foi Frederico Ressano Garcia
Frederico Ressano Garcia (Lisboa, c. 1846–1911), engenheiro formado na École des Ponts et Chaussées de Paris, foi deputado, par do Reino e ministro, e dirigiu a expansão de Lisboa para as Avenidas Novas. A vila fronteiriça do distrito recebeu o seu nome em homenagem.
A agricultura colonial e o colonato do Sábiè
A partir dos anos 1930 fixaram-se nos vales do Incomáti e nos arredores da Moamba pequenos agricultores europeus, dedicados aos produtos frescos, citrinos e gado para Lourenço Marques. Entre 1955 e 1974 o Estado colonial instalou o colonato do Sábiè, cuja história exige honestidade: para instalar cerca de 50 colonos — o número registado em 1972 —, foram expropriados 36 324,5 hectares, e a população africana da zona, estimada em 12 910 pessoas em 1969, foi empurrada para terras mais secas e menos férteis. Produziam-se batata — o principal produto comercial —, milho, arroz, gado bovino e leite, servidos por canais de rega e diques construídos pelo Estado. Após o 25 de Abril de 1974, o abandono das propriedades coloniais foi rápido; parte das infra-estruturas de rega então criadas está na origem dos regadios descritos na página Agricultura e pecuária.
Da independência às grandes obras
Com a independência de Moçambique, proclamada a 25 de Junho de 1975, o distrito entrou num período de profundas transformações: a seca de 1982–1983 teve efeitos devastadores em todo o sul do país, incluindo Moamba, e a guerra que assolou o país até 1992 afectou a região. Foi neste período que nasceu a barragem de Corumana, no rio Sábiè, construída entre 1983 e 1989 e em operação desde 1990. A guerra e a falta de financiamento deixaram seis comportas por montar; as obras complementares, concluídas em 2019–2020 com financiamento do Banco Mundial, elevaram a capacidade da albufeira para cerca de 1 380 milhões de metros cúbicos e permitiram abastecer de água o Grande Maputo (ARA-Sul).
A povoação crescida em redor da estação ferroviária foi elevada a vila a 1 de Junho de 1964. É hoje a sede do distrito e dos serviços distritais, a cerca de 75 quilómetros de Maputo pela estrada nacional N4.
Património ferroviário
O distrito conserva um conjunto notável de estações históricas da linha de Ressano Garcia — Moamba, Pessene, Tenga e Ressano Garcia —, testemunhos da arquitectura ferroviária colonial; o edifício da estação de Moamba está documentado desde cerca de 1920. Este património, ainda em uso ferroviário, é um dos motivos de interesse sugeridos na página Visitar Moamba.